segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mensagens da Casa Universal de Justiça

Em 23 de Agosto de 1993 a Casa Universal de Justiça, instituição máxima da estrutura organizativa Bahá’i, respondeu a uma carta de um crente que se referia à possibilidade de um desastre ecológico, tendo apontado algumas linhas gerais:

”Até que venha a época em que as nações do mundo entendam e sigam os ensinamentos de Bahá’u’lláh de forma a trabalharem em conjunto, procurando de todo o seu coração servir os melhores interesses da Humanidade, e a unidade na procura de soluções que possam resolver os vastos problemas ambientais que afectam o nosso planeta, a Casa de Justiça sente que pouco progresso poderá ser feito em direcção à sua resolução. A situação salientada na sua carta é um exemplo da urgente necessidade para uma cooperação global na procura de medidas e adoptando formas para preservar o equilíbrio ecológico da Terra que lhe foi dada por Seu Criador.

Naturalmente, um esforço de cooperação nesta área diz respeito a um aspecto no dia-a-dia da Humanidade, e há inúmeras outras áreas que clamam por uma atenção conjunta de governos e líderes de pensamento.

Assim que as instituições e os Bahá’is individualmente, por toda a parte do mundo estejam envolvidos de forma activa, e mesmo que os seus limitados recursos possam permitir a realização de projectos ambientais de diferentes géneros, o seu principal objectivo neste recente período da Dispensação de Bahá’u’lláh deve ser, no entanto, o de promulgar os ensinamentos da Causa e de levantar as Suas instituições, as quais irão ser como luzes de guia para a humanidade desesperada na necessidade do remédio para as suas doenças.

Deste modo, logo que os princípios Bahá’is de unidade estejam estabelecidos no mundo, os nossos semelhantes serão despertados para o verdadeiro propósito da vida humana e serão encorajados a promover o que os guiará ao supremo bem de todos. Evidentemente que os Bahá’is de forma individual, em especial aqueles em profissões relevantes, deverão estar sempre à procura de caminhos para utilizarem os seus conhecimentos de forma a melhorar a situação ambiental e esforçarem-se por influenciar as várias organizações com que tenham entrado em contacto. Por conseguinte, o amigo é encorajado a prosseguir os seus esforços individuais neste assunto. Além disso, se desejar, pode entrar em contacto com o Departamento Bahá’i sobre meio ambiente, sediado em Nova Iorque, que pode ajudá-lo, ao permitir-lhe contactos com Bahá’is interessados em assuntos desta natureza em outras partes do mundo.”[i]



[i] carta da Casa Universal de Justiça em tradução não oficial, feita pelo próprio.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A evolução no pensamento contemporâneo

A evolução no pensamento contemporâneo

O próprio pensamento contemporâneo tem sofrido uma evolução. A defesa ambiental deixou de ser encarada como uma forma de radicalismo contestatário perante a designada “sociedade de consumo” ou como um convite melancólico ao passado. Aquela ideia de “deixa-o viver mal para conservar a Natureza” deverá ser total mente excluída. A cultura de contacto com a terra, com a Natureza, é fundamental para gerir os ecossistemas. A lógica produtivista com que a Europa do pós-guerra encarou o factor de produção terra, e que conduziu a graves problemas ambientais e financeiros, deverá ser substituída por outra mais equilibrada. De entre várias Conferencias internacionais será de destacar a Declaração de Estocolmo de 1972, subscrita por todos os países membros da ONU que “o Homem tem um direito fundamental à liberdade, à igualdade e condições de vida satisfatórias, num ambiente cuja qualidade lhe permita viver com dignidade e
bem-estar, cabendo-lhe o dever solene de proteger e melhorar os ambientes para as gerações futuras”

A questão ambiental é vista numa perspectiva dinâmica e de “direito-dever”. A concepção antropocêntrica terá que ser abandonada. Como alternativa uma perspectiva mais ecocêntrica entende como essencial a defesa não somente da vida do Homem na Terra, mas a defesa de toda a vida na Terra. No entanto, a perspectiva Bahá’i é inquestionavelmente teocêntrica. Na defesa da concepção ecocêntrica será citado uma comunicação de Diogo Freitas do Amaral:

“A Natureza carece de protecção pelos valores que ela representa em si mesma, protecção que muitas vezes, terá de ser dirigida contra o próprio Homem. É altura de equacionarmos o que é que a Natureza representa como tal, independentemente do benefício e da utilidade que tem e há de continuar a ter para o Homem. E daí resulta que o Direito do Ambiente é o (...) primeiro ramo
do Direito que nasce, não para regular as relações dos homens entre si, mas para tentar disciplinar as relações dos homens entre si, mas para tentar disciplinar as relações do Homem com a Natureza - os direitos do Homem sobre a Natureza, os deveres do Homem para com a Natureza e, eventualmente, os direitos da Natureza perante o Homem. É uma era em que a Humanidade está a entrar ante os nosso olhos; é mesmo porventura, uma nova civilização. Por isso mesmo, essa nova civilização começa a gerar o seu Direito - um novo tipo de Direito. O Direito do Ambiente não é mais um ramo especializado de natureza técnica, mas pressupõe toda uma nova filosofia que enforma a maneira de encarar o Direito.”

Na realidade a defesa de toda a forma de vida no Planeta, é a defesa do seu direito mais fundamental: o direito à existência.[i]


[i] Teixo, Junho 1996

sábado, 14 de junho de 2008

Um empréstimo dos nossos filhos

Outro caso de flagrante violação dos direitos humanos diz respeito à tribo dos Ogoni na zona do delta do Níger, no Sudoeste da Nigéria. Cerca de 500 000 almas compõem esse povo. Ken Barowiwa, poeta e dramaturgo ogoni, refere que nas últimas décadas tem-se assistido à “total e contínua destruição” de suas “terras, nascentes e ribeiros” e que “a sua atmosfera está carregada de hidrocarbonetos, monóxido de carbono e dióxido de carbono”. As terras ogoni sobrepõem-se a importantes recursos petrolíferos. Segundo um relatório da Amnistia Internacional de 1994, as forças de segurança terão atacado pelo menos 60 aldeias, tendo sido executadas extra judicialmente, mais de 50 pessoas.

Há muitos mais outros casos que poderiam ser referidos. O abuso de pesticidas e adubos químicos, além das consequências anteriormente referidas, poderá pôr em causa a aptidão dos solos para a utilização agrícola ou florestal das gerações vindouras. Há a noção de que é necessário caminharmos cada vez mais para a “agricultura sustentada”. No relatório da Comissão Mundial do Ambiente e Desenvolvimento, em 1987, estava referido:

A tarefa da agricultura é produzir alimentos para a população do mundo, mas no futuro a produção agrícola só estará assegurada se, a longo prazo, o solo, a água e a floresta em que ela se apoia não forem degradados. Este é o maior desafio que a investigação em agricultura tem hoje a nível mundial.”

Há um provérbio índio que diz:

A terra não é um bem herdado dos nossos pais ou avós mas algo que pedimos emprestado aos nossos filhos”.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Seattle (conclusão)

Quando Seattle se refere ao “destino comum” tem uma perspectiva coincidente com a da Fé Bahá’i que considera que “a Terra é um só pais e a Humanidade os seus cidadãos”.[i]

‘Abdu’l-Bahá, referindo-se aos indígenas americanos disse: “Deveis dar a máxima importância aos índios, os habitantes nativos da América, pois se estes índios se educarem e forem guiados correctamente através dos Ensinamentos Divinos eles tornar-se-ão tão esclarecidos que a Terra inteira será iluminada.[ii]

e também:

...igualou os índios em seus países às primitivas tribos árabes nómadas na época do aparecimento de Maomé, quando dentro de um curto período de tempo eles tornaram-se destacados exemplos de educação, de cultura e de civilização para o muno inteiro.” e ”maravilhas similares ocorrerão hoje se os índios forem ensinados adequadamente e se o poder do Espírito Santo entrar apropriadamente em suas vidas.”[iii]

Poder-se-á entender destas palavras que os índios poderão, através da Fé Bahá’i, ensinar a toda a humanidade a sua postura para com a Natureza. O facto de se ter referido o exemplo dos povos nativos da América, não é o de promover um romantismo ingénuo nem o de desprezar a tecnologia. A ciência, quando bem empregue, resulta em benefício da humanidade e o emprego de tecnologia cada vez menos poluente não significa que seja menos eficaz .



[i] (referência...ainda não encontrei)

[ii] Estamos desparecendo da Terra, página 50

[iii] Estamos desparecendo da Terra, página 50

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Agricultura é uma actividade nobre

Afinal a agricultura é uma actividade nobre, tal como já descrevemos anteriormente.

Esperemos que do encontro em Roma surjam propostas sustentáveis.

A produção agrícolatem diminuído nos úlimos 30 anos em África. Hoje mais de 200 milhões de pessoas estão cronicamente com fome.

Para melhorar esta situação é necessário aumentar a produtividade agrícola. Sendo necessário recorrer a uma melhor utilização dos solos e fitofármacos, tal como a procura de espécies mais resistentes e rentáveis. O que numa análise pessoal me faz concluir que deveremos ter algum cuidado com aquelas manifestações anarco-chiques contra os transgénicos.

Não deixo de chamar a atenção para a progressiva diminuição da área de cultivo de cereais em Portugal.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Resposta de Seattle (continuação)

Assim pois, vamos considerar a tua oferta para comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar porei uma condição: O homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e desconheço o que possa ser de outra forma. Tenho visto milhares de bisontes apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisonte que nós, os índios, matamos apenas para sustento da nossa vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito.

Porque tudo quanto acontece aos animais, reflecte-se no homem. Tudo está relacionado entre si. Deveis ensinar a vossos filhos que a terra onde pisam simboliza as cinzas de nossos ancestrais. Para que tenham respeito aos pais, conta a

teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da nossa parentela. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem; é o homem que pertence à terra. Disto temos a certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. O que fere a terra fere também os filhos da terra. Não foi o homem que teceu a teia da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à teia, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram os seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que vivem nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso. “

A sabedoria imensa daquelas palavras, que até há pouco tempo, senão ainda hoje, foram menosprezadas. Mais adiante Seattle também afirma:

Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos apesar de tudo. De uma coisa sabemos, e que talvez o homem branco venha a descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues que O podes possuir da mesma forma que desejas possuir a nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por Ele e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu Criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo que as outras raças. Continuam poluindo a sua cama e hão de morrer uma noite, sufocados em seus próprios dejectos! Porém ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial deu-lhes o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será quando todos os bisontes forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brechas de florestas carregadas de odor de muita gente, das velhas campinas empinadas por fios que falam. Onde fica o emaranhamento da mata? Terá acabado. Onde estará a água? irá acabar. Restara dar adeus à andorinha e à caça.

O fim da vida e o começo da luz para sobreviver. Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com o que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noite de inverno, quais as visões do futuro que oferece as suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometeste. Lá, talvez possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois de o último homem vermelho ter partido e a sua lembrança não passar de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas florestas e praias, porque nós as amamos como ama um recém-nascido ama o bater de coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder e todo o teu coração conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo. Esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."