quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Novo Pearl Harbor?

Isto nada mais é do que uma transcrição do texto de Pedro Canais, mas acho que vale a pana ler e tentar confrontar com as projecções de Shoghi Effendi.

"Pearl Harbor significou o início da guerra por todos os continentes. Foi uma agressão traiçoeira que só podia merecer a aniquilação total de quem a desencadeou. Será que foi isto que Warren Buffett quis dizer? Talvez não. O mundo dele é financeiro.

Falava-se há anos no défice público dos EUA e na paciência da China em suportá-lo. Dizia-se também que os bancos norte-americanos estavam tão endividados que, no dia em que alguém se lembrasse de pedir contas, seria o caos. Está a ser. E talvez Warren Buffett não se refira a mais do que isto. Ao facto de ter sido do lado de lá que veio a pergunta que deu origem à crise: onde está o meu dinheiro?

Se for verdade, significa também que as grandes decisões sobre movimentos de capitais estão a mudar de eixo neste momento. Com o Oriente a ganhar a frente do palco.

Há quatro anos, publiquei um romance que tem como pano de fundo os primeiros passos da globalização. Coloquei um herói a viver uma das circunstâncias em que a nossa literatura de viagens dos séculos XV e XVI é a mais rica de todas: os encontros de culturas. Com uma diferença: este herói não era apenas cristão mas também muçulmano e um bom conhecedor da lei judaica. Escrevi aquilo que achei ser a verdade do choque de civilizações… do século XVI. E, na minha opinião, as três heranças monoteístas com raiz em Moisés revelaram-se absolutamente incapazes de compreender o essencial do pensamento do Oriente. Pasmam, e depois ignoram.

Estabeleci a seguir que o meu próximo romance teria como pano de fundo as circunstâncias do presente e o novo choque de civilizações. Queria perceber de que forma o jogo das culturas pode proporcionar a felicidade ou o desgosto a uma série de personagens, cada qual com o seu propósito na vida.

Quando comecei a escrever este segundo romance, voltei a olhar para as premissas do primeiro. E apercebi-me de que essa noção de equilíbrio que o meu herói Martim Regos viu e ignorou no Oriente, essa postura essencial que estava na base da conduta humana dos orientais, é coisa que se perdeu entre nós ainda na Antiguidade Clássica.

Depois de Constantino e da conversão oficial do Império Romano à fé cristã, tivemos um Mandamento Novo a reger-nos, absolutamente extraordinário, mas que ainda não deu frutos: amai-vos uns aos outros. Ainda está para vir quem o aplique, além da Madre Teresa.
O que fez a nossa cultura foi tomar o caminho do bem e do mal. Quebrou com tudo o que existia e recomeçou praticamente do zero, com a Cidade de Deus de Santo Agostinho como representação do mundo e com o monaquismo de São Bento como modelo de virtude.

Quando o Cristianismo se tornou humanista, a sociedade desenvolveu-se como nunca antes tinha acontecido. Foi aqui que a nossa cultura iniciou a globalização e forneceu modelos de desenvolvimento aos quatro cantos do planeta, embora quase sempre à força. Depois, veio o Racionalismo e a Ciência. Finalmente, produziu a sociedade laica, talvez porque partia de uma religião que afirmava que deve dar-se a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Milhões deixaram de ser miseráveis. E esta forma de vida venceu quase tudo o que havia para vencer. Parecia que era para sempre.

No Oriente, tudo isto passou de raspão. O lado de lá do mundo, que agora absorve como uma esponja o racionalismo tecnológico, continua a ver no equilíbrio a única solução para os problemas do mundo e para a conduta do indivíduo. Na China, o debate político ainda não foi possível, talvez apenas porque o equilíbrio se intui num ponto só e não em dois ou três, onde existam os partidos. Depois, temos os parlamentos de Taiwan e da Coreia do Sul a mostrar de vez em quando como é difícil o debate no Oriente. Julgo que as cenas de pugilato parlamentar representam sobretudo a dificuldade com que o Oriente enfrenta a indignação virtuosa, que aponta directamente para o coração do desequilíbrio do outro.
Confúcio estabeleceu as bases de uma obediência de milénios, com hierarquias lineares. Lao Tsé ensinou que a vida é um caminho em que tudo se deve evitar, se for um obstáculo à fluidez da natureza. Sidarta Gautama fez saber que as virtudes se estendem pela perspectiva de inúmeras incarnações em busca da perfeição e não no olhar sobre uma só vida. São as três maiores influências da cultura chinesa e do Extremo Oriente, de uma forma geral. E todas apontam para o equilíbrio.

De repente, o Pearl Harbour Financeiro.

De um lado, um Presidente da maior potência militar do planeta, para quem o bem e o mal são uma certeza absoluta. Do outro, um conjunto economias em crescimento aceleradíssimo, para quem estes conceitos são pouco menos do que aberrações.

Do nosso lado, chegámos à Era dos Extremos, como lhe chamou Hobsbawm. E neste percurso nada nos reorientou no sentido do equilíbrio. Nem os 500 anos de contactos, e nem sequer as infelizes consequências das Guerras do Ópio que lançaram a China há um século e meio na trajectória descendente em que viveu, até à criação do inédito socialismo de mercado livre por Deng Xiaoping.

Penso que a prática política das Democracias Ocidentais é o espelho mais nítido de uma forma de pensar que, do meu ponto de vista, nos fez aproximar do momento crítico que estamos a viver. A Democracia não encontra outra forma de se sustentar que não seja sobre os partidos políticos. Muitos deles, ainda com a chamada "obediência de voto", que oficializa um mundo a preto e branco, com o bem de um lado e o mal do outro. Mas, com ou sem essa obediência, o político tem sempre razão e está sempre em desacordo absoluto com o adversário. E mais curioso ainda, quando se analisam os resultados, ninguém estava errado.

No reverso da medalha, a independência política é tudo menos rentável. Qualquer independência, de resto. E o discurso conciliatório raramente dá votos. Cada vez menos. O conflito aberto, por outro lado, rende e prospera. Mesmo que seja vazio de conteúdo. O futebol, com todos os seus méritos e deméritos, fez-nos perder o pudor do ódio gratuito.
No primeiro debate de campanha entre Obama e McCain, o Senador do Ilinois disse por duas ou três vezes que "o senador McCain tem razão". No dia seguinte, um político profissional comentou comigo que a frase era um "erro político".

Eu julgo que toda a gente percebe o que um político quer dizer com isto. Mas para mim, um erro político é, em primeiro lugar, a assunção despudorada de que a conquista do poder ou a sua manutenção são mais importantes do que o interesse geral. Obviamente, isso não lhes interessa. O que lhes interessa é que o debate se mantenha sempre sem qualquer intercepção de conjuntos. Nada de matérias de consenso. Porque rende politicamente. Mas o que eu penso é que poderá deixar de render, se a lição desta crise for aprendida pelos eleitores.

O discurso político raramente vai além do discurso económico com fitinhas. Em tempo de guerra, acrescentam-lhe bandeiras e archotes. Pouco mais. Por isso, a economia do Ocidente tem uma história parecida.

Os extremos económicos que experimentámos até hoje em Democracia surgiram nos anos trinta, quando Keynes sugeriu ao Ocidente que as economias em depressão poderiam ser dinamizadas com o investimento público. Um espécie de tese do TGV da altura. Defendia que uma cadeia de acontecimentos se encarregaria de empurrar a economia para uma dinâmica de crescimento, a partir da iniciativa do Estado. Evidentemente, o Estado também iria regular o mercado.

Resultou. Foram trinta anos de prosperidade e crescimento, como nunca se tinha visto. O plano Marshall de reconstrução de uma Europa destruída pela guerra ficou no meio deste retrato de família.

Depois, veio a inflação e veio o declínio das taxas de lucro, com os choques petrolíferos a tornar tudo ainda mais sério. Keynes deixou de ter razão. Mas surgiu um novo guru da economia com uma solução "quase" nova: o oposto! E digo "quase" nova porque Milton Friedman veio dizer que um "laissez faire" quase absoluto seria o caminho.

Também resultou. Voltou a haver crescimento. E toda a gente se esqueceu dos riscos da economia desregulada, da tendência para os monopólios, das bolsas de pobreza crescentes, e até das situações de desespero a que pode chegar grande parte das populações enquanto o mercado não retoma o crescimento.

Desde aí, é entre estes dois extremos que temos vivido, do ponto de visto do discurso político. Na prática, domina há trinta anos a economia desregulada de Milton Friedman.
O resultado é este que estamos a viver. Os políticos esqueceram-se de que a solução de Keynes começou por ser uma proposta para atenuar os efeitos mais drásticos dos ciclos económicos que ambas as correntes reconhecem. Mesmo assim, não havia nunca a possibilidade de se encontrarem soluções políticas que fossem um meio termo. Ou era um ou era o outro. Nada de intersecções de conjuntos. Nada de pontos de consenso.

Em 1980, eu frequentava o curso de Economia da Universidade Católica de São Paulo. Por essa altura, o Chile de Pinochet, o primeiro país a aplicar esta via neo-liberal, logo a seguir ao golpe que afastou Allende, vivia já um boom económico assinalável. E um dos professores não se cansava de mostrar simpatias em relação à economia chilena. O resultado era extraordinário. Estas simpatias geravam aulas inacreditáveis, com os alunos a insurgirem-se e a radicalizaram um discurso totalmente à esquerda. Eram aulas de exercício de extremismos, ainda que apenas verbais. Naturalmente, eram potenciados pelo ódio que nascia das imoralidades do regime do general, ali mesmo ao lado. Ficou-me a imagem que eu continuo a recordar da mesma forma sempre que assisto a debates em que a economia é dissecada. Nada mudou.

A nossa cultura Ocidental estimula-nos a ver totalmente preto ou totalmente branco. E até resultou durante algum tempo. Mas, pelos visto, acabou-se. Já não governamos sozinhos.
Nos próximos anos, julgo que os políticos com relevância têm pela frente a tarefa mais difícil de todos os tempos. Conciliar as duas formas de pensar mais antagónicas que o mundo já conheceu. Fazer com que se entendam aqueles que querem viver o paraíso na terra com aqueles que preferem vivê-lo no céu.

Julgo que vai ser difícil, se prevalecer a forma de pensar e de actuar que têm seguido os políticos de uma forma geral. Porque, além de tudo, esta é apenas a primeira das dificuldades.

As mudanças que todos temos pela frente são inúmeras. E se já ninguém se espanta com as mudanças tecnológicas, nada nos diz que não poderão surgir novidades que tragam desafios ainda maiores. De facto, em quase todas as áreas do conhecimento há promessas de grandes surpresas.

Na física, a promessa de unificação das famosas teorias das cordas, talvez já sintetizadas na chamada teoria M, poderá trazer a também tão desejada unificação da teoria da relatividade geral com a mecânica quântica. O resultado será uma percepção clara das quatro forças existentes na natureza. Eventualmente, poderá ser o ponto de partida para o desenvolvimento de uma nova fonte de energia inesgotável e barata.

Imaginemos então o que será transformar de imediato todo o complexo global de indústrias petroquímicas em unidades fornecedoras desta nova solução. Também não me parece fácil imaginar tudo isto a acontecer em paz.

Na biologia, a simples resolução dos mistérios das mutações genéticas traria tantas possibilidades no campo da saúde que a esperança média de vida poderia subir de uma só vez para mais algumas dezenas de anos.

Imaginemos o que seria ter de alimentar toda a gente. Cada vez se imagina menos paz.

Mais difícil ainda, vai ser, com certeza, lidar no futuro com o conceito de Nação. Numa época em que cada vez mais se globaliza a economia, as exigências de regionalização dos centros de poder são cada vez maiores. E as Nações exigem toda a capacidade de tomar decisões políticas. Integram-se as economias e desfazem-se os mecanismos de as orientar, em caso de necessidade. As lutas pela independência que têm surgido por toda a parte são o sinal mais evidente.

Mas o problema não fica por aqui. A questão da Europa talvez seja a mais grave. No dia em que escrevo, os políticos europeus estão à beira de deixar a economia - mundial - entrar em colapso, apenas porque não se sentem mandatados pelas respectivas Nações para colocar, antes do seu país, a própria Europa. As economias dos países europeus estão muitíssimo mais interligadas do que as suas políticas. Continua a ser cada um para seu lado e agora as consequências estão à vista. Não há mecanismos de comando. Falharam até agora todas as tentativas nesse sentido. Mais uma vez, é a incapacidade política para explicar aquilo que se percebe em menos de um minuto. Sobretudo, por causa do conceito de Nação.

Para alguns, este jogo das Nações está a atravessar o momento mais crítico. E esses alguns são novamente os físicos teóricos.

Nos anos sessenta, o astrónomo soviético Nicolai Kardashev criou uma escala para medir o nível de uma civilização a partir da quantidade de energia que tem disponível. E estabeleceu que existirão civilizações de tipo I, tipo II e tipo III. A primeira, capaz de dominar e gerir todas as formas de energia disponíveis no planeta, a segunda, capaz de dominar os recursos do seu sistema solar, e a terceira, capaz de fazer o mesmo ao nível da galáxia. Com isto, concluiu que vivemos ainda numa civilização do tipo 0. Gastamos energia de plantas mortas, carvão e petróleo, mal dominamos ainda a energia que nos chega do sol ou a que está disponível nas marés e nos ventos. É assim do ponto de vista da física. E, também para os físicos, parece ser claro que uma passagem de civilização de tipo 0 a tipo I implicará uma partilha de recursos por todo o planeta, já que a disponibilidade da energia planetária não se imagina concentrada em ninguém sem que não haja conflito.

O período que estamos a viver, ainda segundo a física teórica, é uma janela de possibilidades terríveis. Temos já a capacidade para nos autodestruirmos mas não temos ainda o consenso energético global que nos levará, segundo estes físicos, à civilização de tipo I, que, em princípio, deverá fechar essa janela. Mas onde ficariam então as Nações, perante a necessária partilha de recursos?

O mais curioso, do meu ponto de vista, é que a premissa dos opostos nem sequer nas artes deixou de ser a norma entre nós. Pelo menos, até há bem pouco tempo.
Depois da exaustão do realismo e do naturalismo, que serviram sobretudo para fazer explodir uma moral num beco sem saída (em particular na literatura, mas não só), uma boa parte da produção artística voltou a mergulhar num certo romantismo de fundo, em que o Eu prevalece e quase ofusca a observação do meio. Nem que seja apenas nas idiossincrasias adoptadas na busca da forma que vai estruturar a coisa a criar.

Falando concretamente de literatura, surgiu uma tendência que pretende olhar para o homem até ao fundo do poço em que ele se transforma. Ainda hoje muita gente contempla as profundezas insondáveis do infortúnio e da desadequação do indivíduo às contingências, quando há muito se tornou evidente que a complexidade em volta do poço evidencia imagens muitíssimo mais brilhantes da nossa condição. Por uma razão simples. Porque é do lado de fora que podemos partir para o maravilhoso que nos enche por dentro. E porque é apenas no maravilhoso que podemos encontrar a liberdade necessária para ir ao encontro de todas as possibilidades que convêm à criação e ao espírito que pretende alimentar-se dela para se manter vivo.

O infeliz contemporâneo já não alcança o maravilhoso há décadas. Sobretudo se abandonou a religião, que embora lhe desse quase sempre um maravilhoso em circuito fechado, servia de consolo autêntico para a alma. Fechou-se numa concha de pragmatismo imbecil que o torna irremediavelmente deprimido se não tem um Porsche. Com o Porsche, ilude-se mais seis meses e é a infelicidade outra vez. As únicas alternativas são o poder ou o amor romântico. O sexo é um amendoim.

O maravilhoso na literatura e nas artes de uma forma geral ainda está a ser redescoberto. E até ter ressurgido, o oposto a esta tendência dominante foi quase sempre a criação à maneira do comissário político. Gente que piscava o olho àqueles com quem partilhava uma visão de mundo, e que dava voltas e mais voltas aos quadros de referências que iam mantendo a união dos amigos.

Assim mesmo, com tudo o que são novas possibilidades no mundo da criação, percebemos claramente dois opostos: um Homem virado para fora e um Homem virado para dentro.

E por tudo isto… e por todas estas circunstâncias a que nem as artes escapam, penso os desafios do futuro próximo são colossais.

Para a economia, já se percebeu que é fundamental reduzir o curso do pêndulo e não permitir que as oscilações sejam tão amplas. Para os políticos, penso que a solução deverá ser a mesma: reduzir também o curso do pêndulo.

Claro que é indefensável qualquer regime de partido único em Democracia. A Liberdade de Expressão será sempre a luta mais digna de cada ser humano. A diferença, julgo eu, estará na forma do debate. Em dizer-se ou em não dizer-se que "o senador McCain está certo".

Não sei ao certo por que terá conseguido Barack Obama juntar mais de duzentas mil pessoas em Berlim, este Verão. Não sei se foi porque tem uma voz agradável ou porque parece falar com franqueza, ao contrário da maioria dos políticos. O que sei é que, pelo menos duzentos mil voltaram a acreditar num político, que até é estrangeiro, e que até é candidato à presidência de uma Nação que foi ocupante da dos circunstantes durante mais de sessenta anos. Talvez haja alguma coisa a aprender com um homem que diz que o seu adversário tem razão neste ou naquele ponto. Um político que reduziu o curso do pêndulo. Pelo menos, na aparência.

Em Portugal, Afonso Costa proferiu há cerca de cem anos um famoso discurso em que dizia que "por muito menos crimes do que os cometidos por D. Carlos, rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI". Era assim que oscilava o pêndulo no parlamento português. Hoje, nem tanto. Mas isto porque os eleitores o rejeitariam. E é exactamente o que eu penso que poderá acontecer mais uma vez.

Por um lado, os políticos poderão aprender com outros - melhores políticos do que eles - as novas tácticas mais eficazes. A optar por um discurso mais credível ou até mais verdadeiro.
Por outro lado, penso que os eleitores poderão, com vantagem, rejeitar cada vez mais esta forma esclerosada que tem o seu emblema na utilização da expressão "erro político".
Finalmente, regresso ao tema que me trouxe, para dizer que quase tudo isto é pano de fundo do meu próximo romance. E para dizer ainda que a crise que atravessamos também trouxe complicações ao meu trabalho.

Uma das contingências de usar a História como matéria prima da narrativa é este inconveniente. Por causa de tudo o que está a acontecer, acabei de rasgar (de deletar, na verdade) mais de cinquenta páginas de tudo o que escrevi nos últimos meses. Também me vi obrigado a retirar alguns obstáculos que se colocavam às minhas personagens e a construir novos. A realidade mudou. Para mim, fica claro, quando se observa na construção de uma narrativa.

Pela frente de tudo isto, anda no meu novo romance uma série de personagens que ainda me faz correr quando eu quero acompanhar-lhes o passo: um casal de amantes que se amou tanto, que nem Deus conseguiu separar-lhes as almas à hora da morte; um soldado português do exército de Napoleão que pensava que era o diabo; um velho que se ocupava de neutrinos, positrões, fermiões e leptões como quem trata de miosótis; e muitas outras, espalhadas por uma história que tem início há cerca de duzentos anos e que vem até aos nossos dias.

Às minhas personagens, dou a máxima liberdade. Mas à realidade onde circulam pela maior parte do tempo não posso. Não me convém à escrita. Uma parcela do que escrevo quero que assente sobre a realidade. E talvez agora eu deva observar apenas, durante algum tempo. Mas também não tenho pressa. In medio virtus. Que é como quem dizia, lá pelo início da nossa civilização, "no meio é que está a virtude". Mas de uma coisa, não tenho dúvidas: o meu mundo já mudou. "
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1 comentário:

Marco disse...

E ele não percebe que quando acaba um mundo começa outro?