terça-feira, 27 de maio de 2008

Resposta de Seattle, chefe índio

Recorde-se a resposta atribuída a Seattle, chefe dos índios Duwamish ao responder a uma carta de Franklin Pierce, então presidente dos Estados Unidos, quando este pretendia adquirir as vastas terras índias:

O Grande Chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois bem sabemos que ele não precisa de nossa amizade. Vamos porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. Como podes comprar ou vender o céu, e o calor da Terra?

Tal ideia é-nos estranha. Se não somos donos da pureza do ar e do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente do pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina da floresta escura, cada clareira e insecto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.

O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vaguear entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande água - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos das campinas, o calor que emana do corpo dum cavalo, e o homem - todos pertencem à mesma família. Portanto quando o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar a nossa terra, ele exige muito de nós. O Grande Chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar a nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue dos nosso ancestrais. Se te vendermos a terra, ter-te-ás de lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar da água é a voz do pai de meu pai. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos a nossa terra, ter-te-ás de lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são nossos e teus irmãos, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar vai-se embora. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seus pais e o direito de seus filhos à “herança”. Ele trata a sua mãe - a terra , e seu irmão o céu, como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelhas ou missanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto. Não sei. Os nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada entende.

Não há sequer, um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um insecto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende.

O barulho serve apenas para insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária de um curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem. O homem branco não parece perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, ter-te-ás de lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte o espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebeu seu último suspiro. E, se te vendermos a nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres."

1 comentário:

SAM disse...

Ou não venderam a terra, ou o homem branco não cumpriu o contrato...