terça-feira, 9 de outubro de 2007

O Nobel em Medicina

Mario Capecchi, Oliver Smithies e Martin Evans, cujos trabalhos foram desenvolvidos separadamente, descobriram como manipular geneticamente células embrionárias de ratos, indicou o comité Nobel, permitindo a manipulação genética "in vivo", ou seja, nas condições naturais do organismo.
Inactivaram um gene, técnica essencial no domínio terapêutico, reconhecida como base da biomedicina do século XXI, e que é aplicada em quase todos os domínios da biomedicina, vindo a ser laureados com o Nobel.
Estamos perante uma combinação engenhosa de técnicas, envolvendo as famosas células-tronco embrionárias (derivadas de embriões com poucos dias de vida e capazes de assumir a função de qualquer tecido do organismo) e um mecanismo celular natural, usado para conservar o DNA.

O mecanismo em questão é a recombinação homóloga, que acontece durante a formação das células sexuais, como os óvulos e espermatozóides, e também durante o rearranjo do DNA. Tendo a maior parte dos animais e plantas duas cópias de cada gene nas suas células - uma oriunda do pai e outra da mãe, a recombinação homóloga pode acontecer quando surgem erros em uma das cópias de DNA. Nesse caso, a célula pode usar a outra cópia como "backup", guiando-se pela presença de "letras" químicas de DNA semelhantes.

O primeiro passo da técnica do "Knoc-out" é justamente induzir a recombinação homóloga com um pedaço de DNA "backup" que, na verdade, contém uma versão inoperante do gene de interesse. Dessa forma, a célula passa a incorporar o gene desligado. A parte seguinte do truque é fazer com ele fique desligado no organismo inteiro - no caso, num camundongo inteiro.

É aí que entram as células-tronco embrionárias. O desligamento do gene normalmente é feito dentro delas. Posteriormente são injectadas num embrião nos seus estágios iniciais. Algumas delas vão parar na linhagem germinativa, aquela que vai dar origem aos óvulos e espermatozóides. Isso significa que os filhotes do camundongo "quimera" (ou seja, cujas células se originaram de dois indivíduos diferentes) terão a modificação genética desejada.

Desde a elaboração da técnica, ao longo dos anos 1970 e 1980, tem sofrido melhoramentos importantes. Sendo hoje possível induzir o desligamento do gene só após determinado momento, ou apenas num determinado tipo de célula, em vez de em todas as do organismo. Isto é importante porque certos genes são tão cruciais para o desenvolvimento inicial dos mamíferos que desligá-los logo na fase embrionária acabaria matando o embrião, e destruindo todo o trabalho dos pesquisadores.

A técnica é uma ferramenta indispensável para estudar a relação entre determinados genes e doenças de todos os tipos, criando modelos dos males humanos em animais. Por tudo isso, o futuro da técnica vencedora do Nobel tem tudo para ser promissor por muito tempo.
Esperemos que não surja nenhum grupo anarco-chique para destruir o laboratório.

1 comentário:

SAM disse...

Não esperava menos de ti: um texto sobre os nobel da medicina. Esperemos que o trabalho deles não leve o "Doze Macacos" a se converter em realidade ;-)

Estou ansioso pelo de amanhã: literatura!